quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Entre Mundos Sobrenatural


Perdido no Vale das Sombras, Spirus caminha em uma direção desconhecida. Os pés sangrando, deixando um rastro rubro no solo ressequido. Seu olhar sombrio, sem vida, contempla a imensidão à frente, buscando encontrar uma esperança naquela região mortífera.
Seus ouvidos ouvem estranhos sons, sussurros de coisas invisíveis, ameaças de seres tenebrosos que habitam as criptas encravadas no interior das montanhas negras que cobrem o leste daquele lugar nenhum. 
Suas pernas estão enfraquecidas, sua mente divaga ao sabor do andar dos membros cansados.
Nada: essa é a única palavra. Spirus caminha no nada. Anda sobre um chão morto, sob um astro sem brilho, e ao som de vozes de coisas inimagináveis, cuja existência é duvidosa, visto seu caráter absurdamente assombroso.
Ele sabe que nenhum horizonte o espera, nenhuma vida, nenhum contato. Caminha por não saber como parar. Insiste em movimentar as pernas porque nunca fora ensinado a desistir.
Ouve risos escarninhos, palavras de deboche e ameaças insanas; uma balbúrdia que lhe causa um pavor imenso, levando-o a imaginar as formas mais medonhas e cruéis.
Sua existência por um fio, o sangue escorrendo dos ferimentos infligidos por sua própria insanidade, a loucura rondando sua consciência, turvando seu julgamento e dando-lhe um aspecto de profeta de si mesmo.
Pára. Quer olhar para as quatro direções daquele mundo. Faz isso muito devagar, girando o corpo inteiro para olhar para cada ponto de forma muito particular. Ajoelha-se ao contemplar o oeste, vê o astro desaparecendo atrás de uma montanha, ouve gritos medonhos logo atrás de si, sente o sangue gelar.
A escuridão vem se aproximando ligeira, cobrindo com seu manto sombrio aquela região medonha.
Spirus, mergulhado em profundo pavor, vira-se lentamente, o corpo tremendo, a boca seca, o sangue latejando nas têmporas. Antes que a escuridão cubra aquele mundo, ele deseja enxergar o impossível. Deseja ver a própria morte, materializada logo ali atrás, bem perto de seu corpo maltratado.
Ele a encara.
Antes de cair completamente o véu sombrio da escuridão, Spirus ouve o seu próprio fim dizer:
— A morte há muito já te encontrou, mas isso não é suficiente... Eu sou aquela que agora chegou para romper o último elo que te prende à vida.
Um grito de desespero corta o vazio. O nada é o único que ouve uma gargalhada sinistra na escuridão.

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